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Por que repetimos nossas escolhas? Acontece que algo nos escapa

  • Foto do escritor: Rafael Pavan
    Rafael Pavan
  • 4 de jun.
  • 3 min de leitura

A pessoa começa uma dieta, mas sempre para. Começa um projeto novo e logo desiste. Pula de relacionamento fracassado em relacionamento fracassado. Faz compras sem sentido com dinheiro que não tem. Retorna sempre para a mesma droga ou remédio. Desiste sempre das mesmas coisas, insiste com a mesma frequência em outras. Quer parar, mas não consegue. Que mudar, mas sente que não consegue de fato decidir o que quer na vida e que algo a arrasta de volta para o mesmo lugar. E repete, repete, repete.


O que acontece quando repetimos nossos fracassos? Para a psicanálise, isso não é por acaso. A repetição tem uma função específica na vida de cada um: tentar dar sentido a algo.


Jacques Lacan define a repetição como aquilo de real que retorna a cada nova tentativa. Mas aqui, precisamos entender muito bem o que é esse tal “real”. Para Lacan, não se trata de “realidade” (o mundo ao nosso redor). O real é aquilo que resiste à simbolização completa e não pode ser plenamente integrado pela linguagem ou pelo sentido. Ele aparece como ruptura, trauma, excesso ou impossibilidade, desorganizando as estruturas imaginárias e simbólicas pelas quais o sujeito tenta dar coerência ao mundo. O real não é a “realidade objetiva”, mas justamente aquilo que retorna como resto impossível de eliminar. É aquilo de mais essencial sobre nós mesmo que pouco conhecemos.


A repetição acontece na insistência do real que tenta se fazer ouvir: aquilo que retorna exatamente onde o sentido falha e onde já não encontramos palavras capazes de simbolizar.


“Esse real, onde o encontramos? É, com efeito, de um encontro, de um encontro essencial, que se trata no que a psicanálise descobriu – de um encontro marcado, ao qual somos sempre chamados, com um real que escapole” – Jacques Lacan, seminário 11, Editora Zahar, página 58/59.

Ou seja, a cada vez que repetimos alguma coisa, algo desse “não simbolizado” do real “escapole” e encontra uma forma de se tentar fazer ouvir, com um “encontro marcado” na repetição. O próprio ato em si da repetição já carrega algo que aponta para um traço do real. A título de exemplo, uma pessoa que recorrentemente fracassa em relacionamentos pode estar tentando lidar com o fracasso nas ligações afetivas com o pai ou com a mãe. Uma pessoa que insiste compulsivamente em deixar as coisas ao redor organizada pode estar tentando dar voz ao caos testemunhado na infância. Outra que falha e recomeça sempre novos projetos pode estar tentando dar uma resposta às críticas cruéis vinda dos pais. Aqui, não existe fórmula mágica, e cada indivíduo deve buscar em si o que suas repetições tentam simbolizar.


Não se trata de “escolher” repetir, mas sim de retornar sempre a este real que insiste em nos escapar.


Assim sendo, a repetição é, de alguma forma, um fracasso. O fracasso em se atingir esse real não simbolizado, ou de dar um sentido para uma experiência traumática. Mas é também um compromisso de meio termo, uma vez que esse real, se não é dito e simbolizado inteiramente, encontra um meio-dito na repetição ou num sintoma que insiste em reaparecer. Dessa forma, não fica forçado a existir de forma completamente esquecida na mente humana, mas também não se faz ouvir por inteiro, o que permitiria ao sujeito observar sua repetição sobre um outro ângulo simbólico e ser capaz de, finalmente, dar um sentido diferente àquele original. A repetição é um “meio termo” para o real, uma situação que não se resolve nunca.


Há uma frase do pintor Francis Bacon que ilustra bem essa irrupção do real não simbolizado: “eu quero pintar o grito mais do que o horror”. Podemos interpretar que o horror é justamente a repetição, as tentativas fracassadas que tragicamente imprimimos na vida. Ao pintar o grito, Bacon aponta justamente para a simbolização do real, aquilo que não foi dito nem gritado. É através de um grito simbólico, de um acesso direto à experiência traumática, que podemos ressignificar nossas repetições.


Ou, dito de outra maneira, é buscar nomear aquilo de desconhecido que habita em nós e procura se manifestar sempre que pode, quantas vezes for possível, repetindo, repetindo, repetindo...

 
 
 

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