O que perdemos quando a IA pensa por nós? A celebração do gozo ignorante.
- Rafael Pavan

- 15 de mai.
- 7 min de leitura
1. Agentes, agentes! Nos salve! Nos salve!
Recentemente vi um video no Linkedin sobre agentes de IA que estão realizando atividades operacionais dentro da área de RH. E mais, além de realizar a operação, também indicam caminhos, oferecem soluções, sugerem melhorias. O humano precisa apenas decidir se vai acatar ou não o que a máquina sugere. Mágico. Revolucionário. Uma nova raça de servos para atender todas nossas demandas quando e como quisermos. O mundo corporativo não consegue esconder o sorriso e o gozo de mandar pessoas embora e trazer mais competitividade para suas rotinas e lucros.
Porém, em termos de conhecimento, de repente a operação de RH (ou de qualquer outra área) torna-se superficial, algo acessório. Entender como as cosias funcionam no mundo real importam cada vez menos. Afinal, isso é chato e não quero ter que me a ver com isso. O essencial é ter respostas prontas e que tragam agilidade, eficiência, completude, satisfação, gozo.
Por trás dessa nova dinâmica que cada vez mais toma conta de nossas vidas, há uma verdade pouco debatida - ou mesmo percebida. Estamos entregando de bandeja (e celebrando) a transferência de algo que deveria ser nosso bem mais precioso: a forma como construímos nosso conhecimento. Valorizamos mais uma ferramenta que aplaca a angústia do não saber do que o esforço para adquirir conhecimento e respostas próprias - e isso é algo extremamente preocupante.
2. O senhor e o escravo – quem manda em quem?
Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, aborda questões complicadas: como me percebo como indivíduo consciente? Qual a função que o outro e as coisas ao nosso redor tem nessa construção? E como posso expandir minha consciência para abarcar mais camadas da realidade e também de mim mesmo?
Na dialética do senhor e do escravo, debatida na Fenomenologia do Espírito (é possível ler “Espírito” como “Consciência”), Hegel nos apresenta a tensão e luta típica entre o “manda quem pode e obedece quem tem juízo”: o senhor manda o escravo executar tarefas e o escravo obedece. Em tempos de IA isso já é familiar e doméstico. O ponto para Hegel, no entanto, é outro. Quem executa a tarefa é quem de fato tem que se a ver com esse “outro”, com essa “coisa” chamada trabalho. Algo que inicialmente é desconhecido, opaco, confuso, conflituoso, mas que, com empenho e implicação, aos poucos vai se tornando algo conhecido e o escravo começa a se identificar com aquele objeto e passa a realizar o trabalho com cada vez mais consciência, precisão, maestria.
Pense, por exemplo, no processo de aprender um instrumento musical novo. Um piano, por exemplo. Num primeiro momento, aquelas 88 teclas são ameaçadoras, hostis, emblemáticas, precisam ser decifradas. Aos poucos, porém, com prática e estudo, passamos a dominar a “realidade piano” e nossa consciência sobre aquele assunto se expande, tornando-nos mais capazes de lidar com o mundo (mesmo que numa pequena fração dele).
Neste sentido, o escravo é aquele trabalha e adquire conhecimento. E o senhor? Bom, o senhor está confortavelmente em sua poltrona se deliciando com a música que seu escravo toca para ele. Ocupa, portanto, um lugar de gozo na dialética, exatamente o lugar que ocupamos diante da IA. Não sabemos de nada, o outro é que sabe de tudo. Apenas mandamos, somos obedecidos, e gozamos. Nossa consciência permanece intacta, inalterada, imóvel. Hegel mostra que o verdadeiro desenvolvimento da consciência acontece pelo trabalho, pelo enfrentamento da realidade e pela transformação do mundo — e não pelo simples gozo ou domínio. É isso que o leva a defender a ideia de que é o trabalho que edifica o ser humano.
Há um conto de Tolstoi que eu acredito ilustrar muito bem essa dialética, e que curiosamente (ou não) leva um nome extremamente parecido: senhor e servo, de 1895. Este longo e delicioso conto nos traz a história de um rico senhor russo que precisa realizar uma pequena viagem intermunicipal de negócios a bordo de um trenó pela neve que será conduzido por um servo contratado. O que era pra ser algo simples, onde o senhor, mais uma vez, paga para que alguém realize seu trabalho (a viagem) enquanto ele goza confortavelmente do resultado, acaba se tornando uma complicada e perigosa viagem. Aos poucos, o cenário da viagem muda e uma terrível tempestade de neve ameaça a vida de ambos. A natureza e rigor do inverno russo se apresentam com toda sua força e exigem que ambos se coloquem de maneira diferente naquela viagem. O servo, experiente em questões desse tipo, aos poucos muda de posição com senhor e se torna ele o verdadeiro mestre da situação. Por ter trabalhado ao longo de toda vida próximo da terra e da natureza, a conhece, sua consciência entende como essas estranhas forças funcionam e, portanto, sabe como lidar com ela. Exatamente como um pianista experiente. Já o senhor, por ter tido o privilégio de nunca ter sido obrigado a lidar com essas questões, sofre com a iminência da situação que desconhece e vê seu precioso gozo ameaçado. É nesse momento que recorre ao “novo” mestre e a ele confia toda a vida e destino. Quem, então, manda em quem realmente? É isso que Tolstoi nos faz refletir.
3. Transferência de função e direito irrestrito ao gozo
O problema de entregar nossas atividades para a IA é que estamos entregando partes importantes de nós mesmos. Recentemente vi o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis afirmar em um podcast que a IA transfere segmentos cognitivos importantes de nosso cérebro numa escala nunca antes conhecida. Pense, por exemplo, nas contas matemáticas que não mais fazemos. Quanto é 14 x 13? Para a grande maioria das pessoas, essa pergunta é impossível quase de ser respondida de maneira prática (eu incluso). Isso pois, há anos, não temos mais que nos defrontar com essa tarefa - para isso, temos a calculadora. Uma parte importante de nossa capacidade cognitiva foi transferida para uma máquina. Pense agora em quantas outras partes significativas de nossa consciência foram transferidas para máquinas nos últimos anos. O risco da IA me parece ser o de querer dominar tudo de forma exponencial, e a questão que fica é: o que restará de nós mesmos e de nosso cérebro depois de que os agentes de IA invadirem cada vez mais nossas vidas?
Antigamente a humanidade elegeu Deus como grande provedor de respostas e sentidos para nossas vidas. Este, seguindo a esteira do iluminismo, foi destronado e deu lugar à ciência, capaz de explicar alguns fenômenos da natureza. No entanto, a ciência, com suas limitações, tampouco é capaz de dar todas as respostas que ansiamos, sofrendo inclusive uma forte crise recente de descrédito (negacionistas que o digam), e parece, lentamente, dar lugar a um novo (ou antigo?) Deus supremo capaz de fornecer todas as respostas e de aparar todas as arestas: a tecnologia. Essa sim, dotada novamente de forças mágicas que não fazemos absolutamente ideia de como funcionam, promete resolver todas as nossas angústias, responder todas as nossas perguntas, nos liberar de todo e qualquer trabalho. É Adão não tendo mais que tirar o sustento do suor de seu trabalho e sendo aceito de volta ao paraíso. É a nova igreja: a igreja da tecnologia. Assim como nossos antepassados acreditavam em respostas mágicas para explicar os raios caindo do céu, nós parecemos regredir novamente para um estágio onde nos contentamos que chats ou agentes milagrosos de RH irão resolver todos os nossos problemas da vida.
Existe um risco grave em todo esse movimento. Mais do que regredir a humanidade à um estágio mágico de relação com a realidade, a IA parece reivindicar um direito que, como psicanalista, vejo com muita frequência em discussões clínicas. Há apenas um indivíduo que, exatamente como o senhor da dialética do senhor e do escravo, deseja viver apenas comandando todos ao redor. Há apenas um ser que não consegue lidar com a angústia de não saber, ou com a impaciência de ter que adiar, ou de suportar certos desconfortos para ser posteriormente recompensado. Há apenas um indivíduo que a plenos pulmões reivindica sempre o seu direito incessante ao gozo: uma criança. O paraíso pintado para a humanidade pela revolução das IA parece colocar no centro da cena todo o nosso narcisismo primário através de um estado onde todos os nossos desejos serão prontamente atendido, sem nenhum esforço, sem nenhum trabalho. É o retorno da crença de onipotência que todo bebê acredita possuir. Eu choro, um seio aparece. Eu cago, alguém me limpo. Eu tenho sono, alguém me coloca para dormir. Mais do que celebrar a transferência de nosso conhecimento, com a IA parecemos reivindicar o nosso direito de sermos e agirmos livremente como crianças.
4. Quem estamos nos tornando com a IA fungando no nosso cangote?
Voltando ao agente do Linkedin do início do texto, fica a pergunta: quem será, então, essa pessoa que irá “decidir” acatar ou não as recomendações da IA? Que espécie de indivíduo estamos construindo para tomar essas decisões? Um ser humano capaz de lidar com ambivalência, conflito, subjetividade, dúvida, angústia, ou alguém que a todo momento deseja silenciar essas forças?
A questão nunca foi a tecnologia. O belíssimo prefacio de Hannah Arendt em “A Condição Humana” já nos alerta sobre o risco da tecnologia. Escrito logo após uma das maiores e mais maravilhosas conquistas da ciência moderna, a bomba atômica, o tom pessimista da autora já dá a dimensão do problema: nossa questão é ética, não científica ou tecnológica. O que fazer com tanto conhecimento? Como compreender sua função política no mundo? Como construir relações melhores entre quem somos e aquilo que construímos como sociedade? Na década de 50 e 60 a humanidade teve que enfrentar o profundo vazio de sentido que a ciência deixou na raça humana ao falhar em resolver todos os seus dilemas. O silêncio de Hiroshima e Nagasaki é o silêncio de uma desilusão – a descrença na ciência como redentora. Auschwitz Quase 100 anos depois, o que vemos é novamente a incapacidade de lidar com esse mesmo vazio e encarar nossas ilusões. E agora, ao que tudo indica, encontramos uma outra igreja e um novo deus para tapar o mesmo buraco.



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