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O Teatro é o lar da histeria.

  • Foto do escritor: Rafael Pavan
    Rafael Pavan
  • 16 de abr.
  • 4 min de leitura

Sim, o ator ou atriz que amam subir no palco, compartilham algo em comum com os histéricos: gostam de fazer cena. E mais: assim como não existe teatro sem plateia (teatro, em grego, é “o lugar onde se vê”), também não existe histeria sem o olhar do outro.


Mas vamos lá, vamos por partes.


Na psicanálise, uma das formas de se caracterizar a histeria é através de uma certa repulsa ou aversão ao gozo e ao prazer, oriundo de uma relação traumática. Em algum momento, o histérico experienciou algo que lhe deu prazer, mas que foi posteriormente entendido como traumático. Isso quer dizer que, diante de situações de satisfação, o histérico se afasta, mantendo sempre uma distância “segura” daquilo que ele deseja. Cria-se, no entanto, com essa suposta segurança, uma situação de falta. Falta essa que é onde o sintoma do histérico se sustenta: nada nunca está bom, ele nunca está satisfeito, sempre algo está faltando. 


Para o histérico, essa falta aparece como causada pelo outro. Aquilo que lhe falta não é vivido como estrutural, mas como algo que não foi dado — porque alguém não ofereceu o que era esperado. O que ele não possui é localizado no Outro, percebido como completo, como alguém que detém algo e poderia compartilhar, mas, por alguma razão, não o faz.


É a partir dessa suposição que se constitui a demanda: uma demanda dirigida ao Outro para que ele venha a suprir essa falta. Uma demanda que precisa se fazer ver e ouvir, que busca capturar o olhar do Outro — “me dê aquilo que me falta”.


Trata-se, no fundo, de uma demanda de amor. Sem esse olhar, a cena histérica não se sustenta: é ele que mantém em funcionamento o jogo entre prazer e desprazer no qual o sujeito se encontra implicado.


Sem o olhar do outro, o histérico é incapaz de encontrar sentido para sua existência. É um laço com o outro que se baseia na mostração de uma falta.


Exatamente como atrizes e atores fazem ao subir num palco.


É interessante notar que os primeiros estudos de Freud com as histéricas de Charcot apresentam um forte apelo teatral. Eram comum nas épocas que os médicos, com o objetivo de estudar a histeria, realizassem apresentações em sala de aula com pacientes reais, apresentando ao vivo os “ataques histéricos”: paralizações do corpo, esquecimentos de como falar um idioma nativo, convulsões, ataques de gritos, entre outros. De certa forma, tais apresentações carregavam em si traços importantes presentes no teatro: uma plateia, um palco, uma cena, o inconsciente em jogo.


Uma Lição Clínica na Salpêtrière - 1887 (André Brouillet)
Uma Lição Clínica na Salpêtrière - 1887 (André Brouillet)

“A histeria como manifestação do sujeito de desejo está sempre no palco atuando para um espectador. Sem espectador não há teatro e nem histeria. O sintoma histérico, a insatisfação do desejo e a identificação com o desejo do outro - tudo na histeria é teatral, pois trata-se de um laço social, como apontou Lacan, que só funciona com a presença do outro. A histeria faz laço e o sujeito histérico endereça ao outro sua divisão subjetiva. Mas para além disso a histeria é artística, e foi considerada a maior descoberta poética do final do século XIX, segundo os surrealistas.” (Inconsciente Teatral – Antônio Quinet, Atos e divãs)


Aprendemos no teatro a ler um texto, mas também a procurar sempre as entrelinhas do subtexto. O discurso frio e rígido da letra do dramaturgo precisa ganhar calor e vida através da interpretação do ator, que por sua vez, precisa buscar, dentro de si, algo em que possa se agarrar como verdadeiro para preencher este personagem. O processo de olhar para si, do ator, em muito se aproxima do processo de elaboração que realizamos no divã. É procurar aquilo de inconsciente que sustenta um discurso. É colocar, no subtexto do personagem, aquilo que não foi dito em lugar algum. É nesse embate entre o que é dito no texto da peça e o que precisa ser de fato vivido pelo personagem que nasce a atuação, o trabalho do ator e o drama.


“Com efeito, se colocarmos o problema das origens e a razão de ser (ou a necessidade primordial) do teatro, encontraremos metafisicamente a materialização, ou melhor, a exteriorização de uma espécie de drama essencial, numa maneira múltipla e única, os princípios fundamentais de todo drama, orientados e já divididos, não o bastante para perder o caráter de princípios, mas o suficiente para conter de forma essencial e ativa, plena de ressonâncias, infinitas perspectivas de conflito.” (O Teatro e seu duplo – Antonin Artaud - Iluminuras)

Dessa forma, o teatro possibilita ao ator a representar para si e para o Outro um “drama essencial”. E mais, ainda oferece “infinitas perspectivas de conflito”, ou, em outras palavras, infinitas cenas em que o ator-histérico pode mostrar sua falta e seu drama essencial. Dessa forma, o ator encontra, no palco e na cena do Teatro, uma outra forma de lidar com as cenas e palcos que incessantemente carrega em sua vida e neurose particular. É uma outra forma de mostrar sua falta: através da arte. Na psicanálise, encontrar formas distintas e criativas de dar vazão aos nossos sintomas e desejos é algo chamado de sublimação: transformar um impulso ou desejo inconsciente em uma atividade socialmente aceita, como trabalho ou, neste caso, arte, criação.


“Lacan faz da histeria um laço social: o discurso histérico. Trata-se do vínculo do sujeito histérico com o outro, o espectador, em uma performance que pode ser silenciosa, que Lacan definiu como um "discurso sem palavras". Na linha de Freud e Lacan, proponho considerar as artes cênicas como uma forma de sublimação da histeria. O teatro é a histeria sublimada.” (Inconsciente Teatral – Antônio Quinet, Atos e divãs)

O ator carrega, para a cena, sua própria capacidade de encenar e de fazer semblante. O histérico é tão capaz de acreditar na sua cena, que convence o público do mesmo. Sua própria estrutura neurótica carrega a marca essencial da fé cênica, que contagia sua interpretação e seduz o olhar do outro, mantendo-o cativo de seu drama essencial. Assim como as histéricas de Charcot utilizavam o corpo como dispositivo para seus sintomas, o ator utiliza seu corpo para despertar a curiosidade da plateia, criar laço e contar histórias que tenham o inconsciente como base. Não mais na histeria neurótica, mas na histeria artística, sublimada.

 
 
 

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