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Como Enxergo a Psicanálise

  • Foto do escritor: Rafael Pavan
    Rafael Pavan
  • 14 de jan.
  • 3 min de leitura

Penso que a psicanálise é algo muito próximo da habilidade humana de contar histórias. Desde que somos humanos, contamos histórias — sobre os outros e, sobretudo, sobre nós mesmos.


Seja através da tradição oral ou escrita, na religião ou nas artes, ou mesmo na ciência, são as histórias que nos unem, nos transforma, nos guia e nos derruba.


A psicanálise é uma ferramenta que nos auxilia, portanto, a contar uma história. A nossa história.

Freud já dizia: “Os poetas e filósofos descobriram o inconsciente antes de mim; o que eu descobri foi o método científico pelo qual o inconsciente pode ser estudado”.


A relação, portanto, da raça humana com o inconsciente, principal objeto de estudo da psicanálise, é muito mais antiga que a descoberta freudiana do início do século XX.


Mas em que a psicanálise difere da poesia, da filosofia, da religião, da arte, e de todas as outras formas de contação de história?


Acima de tudo, penso que é uma forma de contação de história baseada na fala e na palavra. Uma palavra livre, solta, desapegada de “intenção criativa”.


Nietzsche, num pequenino livro chamado “Sobre a verdade e a mentira” nos mostra as fragilidades das bases em que se sustentam a palavra. Palavras simples e óbvias, como, por exemplo, “árvore”, podem assumir significados completamente diferente na mente das pessoas.

Para alguns, a imagem de “árvore” envolve gigantescas sequoias que quase tocam o céu em florestas densas, enquanto para outros, poucas e pequenas arvores secas e retorcidas num terreno seco.


Para um alemão, a palavra “pátria” se refere a Alemanha; para um russo, à Rússia.

Para um francês, “capital” remente instantaneamente à Paris. Para um inglês, Londres.

“Tio” pode se referir tanto ao tio Roberto, tio bêbado incontornável ou a Luis, um jovem e grande executivo de empresa.

“Irmã” pode ser uma fedelha egoísta e mimada ou uma idosa de olhos grandes e acolhedores.

Pessoas diferentes, imagens diferentes.


Mas e quando um mesmo pai representa conceitos diferentes para um mesmo filho? O pai da infância continua sendo o mesmo pai de hoje em dia? É ainda bondoso e acolhedor, ou cruel e sádico?


A mãe da infância passou Merthiolate ou proibiu de sair de casa? Hoje ela te ajuda nas contas da casa ou finge que você não existe?


Criamos, cristalizamos e existimos com as imagens consolidadas das primeiras figuras cuidadoras, as primeiras narrativas, as primeiras impressões, os primeiros deslumbramentos, os primeiros traumas.


Contar a própria história novamente é ressuscitar palavras antigas, tirar a crosta de pó de cima delas, lavar, polir, aparar, e transformá-las em algo novo, capaz de produzir sentidos novos que tornem a vida mais digna de ser vivida, com suas faltas e seus preenchimentos.


O Analista, nesse contexto, funciona como um receptáculo dessas palavras antigas. Analisa-as juntamente com o analisando, reflete o que elas significam, aponta as principais manchas e realça aquilo que mais brilha. Mostra os padrões que inconscientemente introduzimos nas palavras e auxilia na descoberta mais profunda do que elas simbolizam e representam para nós em nossa realidade e sofrimento atuais, factuais, reais.


Uma boa análise deveria, portanto, nos ajudar a reordenar nossas palavras, nossa história, quem somos e quem gostaríamos de ser.


Uma boa análise é como uma boa poesia, um bom filme, um bom livro, onde o autor e ator principal está sempre deitado no divã, falando, falando, falando...

 
 
 

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