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Quando procurar um analista?

  • Foto do escritor: Rafael Pavan
    Rafael Pavan
  • 21 de jan.
  • 2 min de leitura

Gosto de pensar que uma pessoa procura terapia quando seu sintoma não é mais capaz de sustentar sua vida sozinho.


O que isso quer dizer?


Sintoma são toda sorte de compromisso que criamos em nosso íntimo para lidar com a realidade e com o mundo ao nosso redor. Diante da angústia, algumas pessoas podem, por exemplo, cri

ar estratégias como o uso de drogas. Outras podem procurar atividade física. Outros podem procurar a negação. Outros podem se perder em pensamentos infinitos. A lista de possibilidades sintomáticas para questões básicas da vida são longas e criativas.


Mais do que julgar cada uma dessas estratégias como boas ou ruins em si, é preciso entender o papel que tais estratégias possuem na vida de cada indivíduo. Se permitem com que ele siga em frente vivendo uma vida que ele considere satisfatória, tudo bem. Nestes casos, o trabalho analítico encontra terreno pouco fértil.


No entanto, há momentos da vida em que estratégias antigas e que funcionaram por anos a fio ruem e começam a desmoronar, mostrando falhas estruturais que até então nos mantiveram de pé.

É o caso das grandes reviravoltas das vidas, dos momentos de grandes questionamentos, de perguntas profundas sobre a existência e sobre quem somos. São nestes momentos que nossas estratégias de sobrevivência (nossos sintomas) param de ser suficientes para sustentar uma vida que até então satisfatória.


É nesse momento que o indivíduo procura uma terapia, como uma psicanálise.


Além da falha interna, há em muitos casos também um desmoronamento externo, onde o mundo cessa de fornecer respostas e soluções interessantes. De repente, o conselho do melhor amigo não basta mais, a atividade física não faz mais efeito, o hobbie de sempre não traz a antiga paz interior.


Nesses momentos, o sujeito se depara com o vazio de respostas e, sozinho, precisa lidar com seus sintomas. Uma análise é um espaço onde o paciente é capaz de lidar com essa falta essencial que inaugura o indivíduo em seu próprio discurso, em sua própria verdade.


Aqui, o famoso silêncio do analista entra em jogo. Bancar uma análise está muito além dos valores financeiros ou da disciplina de estar regularmente na mesma hora e no mesmo local falando. É bancar o silêncio que o mundo (e o analista) devolvem diante da pergunta “o que devo fazer?”


É implicar-se na própria fala e na própria história para averiguar aquilo que escapa de nosso olhar viciado e de nossa consciência mecânica que até então sempre lidou com os problemas da mesma e repetida forma. É ter a coragem de retomar temas sensíveis que marcaram nossa vida e que de alguma forma nos direcionaram para a estrada que estivemos trilhando e que agora já não mais podemos caminhar.


História essa repleta de vozes que estão para além da voz própria e interna. A voz de nossos pais e mães. De nossos professores e diretores da escola. De nossos amigos e daqueles não tão amigos assim. De nossos amores e dissabores.


É olhar cada uma dessas vozes e, do meio desse falatório, separar a própria voz com uma pinça e aumentar seu volume e potência para, então, criar uma nova estrada onde se possa caminhar com mais autenticidade. Sair do gregário que nos faz grupo e entender aquilo que nos faz único.

 
 
 

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